Definição do nível adequado de documentação
Sei que este
artigo talvez esteja nadando um pouco contra a corrente, mas me sinto
na
obrigação de discutir este assunto e buscar
iluminar algumas questões obscuras
e que são continuamente abordadas nas metodologias de
grandes empresas.
- Devemos ou não documentar os requisitos de maneira formal?
- Qual o nível de detalhe adequado para a documentação?
- A metodologia corporativa deve determinar com detalhes quais são as entregas obrigatórias ou isso deve ser uma decisão tomada a cada projeto?
- A
metodologia não está engessando nosso processo e
burocratizando nossas
atividades?
Para responder
essas questões, antes acho necessário conceituar
e discutir alguns termos e
seus significados.
Metodologia e Burocracia
Em sua origem
Max Weber (1864-1920) definiu a burocracia como uma forma de
organização que se
baseia na racionalidade, isto é, na
adequação dos meios aos objetivos
pretendidos (fins), a fim de garantir a máxima
eficiência possível.
Uma burocracia
define regras impessoais que estipulam:
- A
divisão do trabalho;
- Rotinas
e procedimentos que garantem a previsibilidade dos resultados;
- As
qualificações técnicas e meios
necessários para desempenhar cada
função;
- O
nível de autoridade de cada função.
Partindo desta
definição, o termo pode ser praticamente
considerado um sinônimo de metodologia:
A
definição de uma metodologia busca estipular um
“caminho
racional” para o
alcance dos “objetivos
da organização”.
Vamos dividir
a frase acima em duas partes e analisá-las
começando pelo final:
Os “objetivos da
organização”
normalmente
estão diretamente ligados à entrega de um produto
final ou serviço aos seus
clientes externos ou internos. Por exemplo, podem ser objetivos:
desenvolver ou
manter um sistema de TI, produzir uma campanha de marketing ou
contratar um
novo funcionário.
Mas os objetivos
não se resumem às entregas. Também
devem ser satisfeitas as necessidades de
manter adequado o custo-benefício do trabalho e garantir a
continuidade do
negócio após a entrega. Ou seja,
eficiência e retenção do conhecimento
também
podem ser considerados objetivos.
A primeira parte
da frase sobre a metodologia refere-se a estipular um “caminho racional”.
Este caminho é geralmente descrito por uma
sequência de etapas ou atividades que devem ser cumpridas num
determinado
processo. Cada atividade deverá ser desempenhada por um
profissional, que no
momento da execução assume um papel
específico e utiliza uma técnica
específica
para elaborar uma entrega, artefato ou documento.
Como exemplo
de caminho racional podemos pensar num restaurante por quilo, onde o
cliente se
serve no buffet, um funcionário pesa o prato e gera a
comanda e outro cobra
pelo serviço no caixa ao final. Papéis e
responsabilidades distribuídas.
Processos mais
complexos podem ter diversas etapas e entregas
intermediárias, como por exemplo
a construção civíl com Croqui, Planta
Arquitetônica, Hidráulica, Elétrica,
Estrutural, Alvará de Construção,
Habite-se, Guia de Recolhimento de INSS,
Cronograma, Fluxo de Caixa...
Críticas
à burocracia (e
consequentemente à Metodologia)
Essas
entregas
intermediárias compõem o chamado
“papelório”. No conceito popular
é considerada
“burocrática” a
organização onde o papelório se
multiplica e se avoluma,
impedindo soluções rápidas e
eficientes. Burocracia é reconhecida, portanto,
como um termo perjorativo.
Nessas
organizações os funcionários
têm tal apego e comprometimento aos regulamentos e
rotinas e que as entregas finais deixam de fazer parte do
“objetivo da
organização”. A conformidade com as
regras passa a ser o novo objetivo que guia
as atividades.
Os
funcionários acostumam-se tanto com as regras e com a
atuação em seu papel que
eliminam a criatividade do seu modo de agir e limitam-se a atuar no
preenchimento dos campos obrigatórios dos
“templates” de suas entregas
intermediárias. Qualquer mudança nas regras em
vigor passa a ser vista como uma
ameaça à sua segurança e
são sempre recebidas com resistência
explícita ou
implícita.
Como a
definição formal dos papéis busca a
impessoalidade para a definição de
responsabilidades, esta impessoalidade é também
tranferida para os
relacionamentos que tornam-se despersonalizados e frios. Uma
organização
burocrática é tida como uma
organização fria e “chata”.
O funcionário
torna-se por fim, tão voltado para as regras internas da
organização, que se
desvincula completamente do cliente e suas necessidades.
Métodologias
Tradicionais
(Cascata)
Em metodologias
tradicionais (cascata) uma etapa só inicia quando a etapa
anterior é concluída.
A conclusão de uma etapa geralmente é formalizada
com uma entrega intermediária.
Por exemplo a construção de uma parede precisa da
planta aprovada, ou a
contratação de um gerente para um novo
departamento pode depender do
organograma atualizado.
Cada entrega pode ser
verificada para garantir a qualidade da execução
daquela etapa do projeto, que
ocorre evolutivamente até a entrega final. Na obra de
construção de uma usina
hidreelétrica, por exemplo, nenhum tijolo é
comprado antes que sejam avaliados
os impactos ambientais e todas as licenças
necessárias sejam aprovadas.
Os projetos que seguem
metodologia cascata sofrem demais com os efeitos
“nocivos” da burocracia. Os
envolvidos tendem a se comprometer mais com as entregas
intermediárias (o tal
“papelório”) do que com a entrega final.
Muitas vezes o conceito de agregar valor
ao cliente e a empresa se perdem totalmente e são
substituídos pela rotina de
cumprir sua tarefa de maneira automática.
Fuga da Burocracia
–
Processo Ad hoc
Como
estratégia para não cair nas armadilhas da
burocracia muitos gerentes têm
buscado flexibilizar totalmente a forma de trabalho. Alguns optam por
não
definir metodologia alguma e serem totalmente flexíveis para
atender quaisquer
necessidades que venham a surgir. O método de trabalho
é definido “ad
hoc”, ou seja, a cada
caso.
Essa
estratégia pode funcionar bem em
organizações onde existe uma equipe de
profissionais excelentes, experientes e capazes de se adaptar a cada
situação.
Contudo, deve-se ter claro que a maturidade dos profissionais
não reflete a
maturidade da empresa. Ou seja, a empresa não é
adaptada a lidar com qualquer
situação. Os profissionais é que
são. Sem os profissionais, a empresa não
é
capaz de reter o conhecimento.
Por não
definir um processo padronizado, geralmente a empresa também
não possui meios
próprios de garantir a qualidade de todas as entregas. O
próprio conceito de qualidade
pode ser questionado quando não há
padrão.
Metodologias
Ágeis
Outro caminho
para fugir dos problemas da burocracia tem sido apresentado pelas
metodologias
baseadas no manifesto ágil (www.agilemanifesto.org). Essas metodologias têm
como valores e princípios:
- Valorizar
indivíduos e interações acima de
processos e ferramentas.
- Priorizar
a satisfação dos clientes com entregas
contínuas de produtos úteis em pequenas
iterações.
- Usar como
medida de desempenho a quantidade de itens do produto final entregue a
cada
iteração.
Mas é um erro pensar
que as metodologias ágeis são ad hocs.
Para que tenham sucesso é essencial a
definição de processos, regras, papéis
e
responsabilidades. Portanto, são também
burocráticas por natureza (no sentido
original da palavra e não no perjorativo).
A grande “sacada”
é a
divisão das entregas finais em pequenas
iterações, não permitindo que os
envolvidos percam de vista os objetivos do negócio. A
produção de produtos
intermediários não representa resultado. No
limite, poderia até ser zero. O
importante é a entrega do produto final pronto para agregar
valor ao negócio.
Risco aos objetivos da
organização
Diminuir o
papelório, substituindo-o por
comunicações mais frequentes e eficazes entre os
diversos envolvidos no projeto é mesmo uma excelente
estratégia para otimizar o
trabalho e aumentar a integração de todos com
foco nos resultados para os
clientes. Mas aqui há um perigo que muitas empresas
não tem dado a devida
atenção.
Nem toda
documentação é papelório
intermediário ou burocracia inútil. Muita
documentação
deve fazer parte das entregas finais juntamente com o produto final. O
manual
do usuário, a certidão de habite-se, o documento
de posse de um veículo ou um
modelo de dados atualizado são exemplos de
papelório que precisam fazer parte do
resultado final juntamente com a entrega. Nas metodologias tradicionais
estes
documentos são (ou deveriam ser) entregas de alguma das
etapas intermediárias.
Isso deveria garantir que estivessem disponíveis ao final do
projeto. Mas nem
sempre isso acontece.
Muitas vezes a
documentação criada em cada etapa tem somente o
foco nos benefícios para o
projeto. Por exemplo, indicar minuciosamente quais mudanças
devem ser
realizadas em um software. Embora esta informação
seja útil para a próxima
etapa do projeto, ela não pode ser considerada
documentação do produto. A
documentação do produto deve garantir o
atendimento de outros objetivos que
extrapolam os limites do projeto:
- Retenção
do conhecimento sobre o produto
- Auxiliar
na análise de impacto em futuras
manutenções
- Agilizar
o treinamento de novos funcionários
- Possibillitar
a contratação de novos fornecedores
Conclusão
As
metodologias que buscam maior agilidade em projetos não
podem comprometer a
estabilidade do negócio. Alguns documentos atualizados devem
ser exigidos como parte
das entreguas finais de todos os projetos.
Em projetos de
software, por exemplo, as regras de negócios e alguns tipos
de requisitos devem
ser atualizados e versionados juntamente com o código fonte.
A release 3.14.216
de um produto está associada a um grupo de requisitos e
regras de negócios diferentes
da versão anterior.
A decisão de
quais são estes documentos e a forma como devem ser
elaborados não pode ser tomada
em cada projeto. Esta decisão deve ser tomada num
nível de governança corporativa
que irá definir a burocracia adequada para que os objetivos
da organização
possam ser atendidos de maneira adequada.
A burocracia
pode ser flexível exigindo diferente
documentação e diferente nível de
detalhamento para cada produto, com base no que agrega valor para suas
futuras manutenções.
Por exemplo, para um determinado sistema de TI pode ser essencial
manter
atualizado o modelo de dados, para outro os fluxos de processos e para
outro o mais
importante são os casos de uso descritos passo a passo.
Importante é que
esta definição não seja tomada no
âmbito dos projetos, mas sim com uma visão de
mais longo prazo, e os requisitos exigidos pela burocracia escolhida
passem a
ser mantidos de maneira formal em todos os projetos.


