Nas últimas semanas tenho publicado alguns artigos sobre confiança.
A tagline do IIBA para este ano é Enabling Confidence, e estou preparando uma palestra que vou apresentar no BA Brasil e em uma série de conferências pelo mundo a partir do próximo mês.
Esse tema, portanto, está na minha cabeça e tenho refletido bastante sobre ele.
Uma coisa sobre a qual tenho pensado com frequência é sobre como a confiança depende da coragem para assumir riscos.
Em alguns contextos, confiança e coragem podem aparecer até como sinônimos:
“Você tem confiança/coragem para lutar contra o Mike Tyson?”
Mas não são exatamente a mesma coisa, como vou explicar mais à frente.
O significado de risco
Uma curiosidade linguística é que a palavra risco, na minha língua nativa, o português, pode significar duas coisas completamente diferentes.
Risco = incerteza (risk, em inglês)
“Risco” pode ser compreendido como a incerteza a respeito de algo que pode acontecer. É o sentido que usamos mundialmente em gestão de projetos e análise de negócios.
Risco = linha (line / mark, em inglês)
O outro significado de “risco” é um traço, um rabisco feito no chão, na lousa, numa folha de papel ou na areia da praia.
Um não tem nada a ver com o outro, mas essa coincidência linguística me trouxe uma metáfora bastante interessante para pensar em risco e confiança.
A metáfora do “risco”
Posso traçar um risco (uma linha) no chão e dizer: “Não ouse ultrapassar essa linha!”

Do seu lado da linha está tudo aquilo que você conhece, com o qual se sente confortável e seguro.
Do outro lado está o desconhecido, o inseguro e o desconfortável.
Cruzar a linha é aquilo que chamamos de assumir o risco, ou aceitar o risco e avançar.
Tenho pensado muito a respeito dessa postura de assumir um risco como uma postura de confiança.
Ter confiança, como já descrevi em outros artigos (referências ao final), significa olhar para o futuro e ter uma expectativa de que algo vai acontecer. Estar seguro disso.
Confiança: o grau de segurança que você tem a respeito de um resultado futuro.
Por exemplo, se estou seguro de que vai chover, provavelmente saio de casa com um guarda-chuva. Se estou seguro de que não vai chover, saio sem.
Nesse pequeno exemplo, você pode ver que a confiança é aquilo que orienta a decisão sobre como vou lidar com o risco. De que maneira eu vou avançar para o desconhecido, levando o guarda-chuva ou não.

Esse cenário fica mais interessante se eu precisar sair de casa. Cruzar a linha do desconhecido não é, muitas vezes, algo que se pode evitar. Mas posso decidir se levo ou não um guarda-chuva.
A confiança para cruzar a linha
Na carreira profissional, muitas vezes somos chamados a assumir posições em um espaço desconhecido, onde não temos certeza se nossas competências serão suficientes para ter sucesso.
Ou então, não sabemos ao certo os passos para conduzir uma iniciativa ou de que maneira devemos nos comportar. Isso pode aparecer como uma oportunidade ou, às vezes, como uma imposição.
O que nos dá coragem para assumir essa posição é a nossa crença de que podemos ser bem-sucedidos. Ou até algum nível de fé de que estaremos à altura do desafio.
É um pouco sobre isso que trata a autoconfiança.
Essa capacidade de atravessar a linha. De cruzar a fronteira do desconhecido e fazer algo novo.
Confiança e coragem, portanto, estão muito associadas. Se coragem é a força do espírito para agir apesar do medo, a confiança ajuda a construir essa força.
Excesso de confiança pode não ser coragem, mas falta de análise
Não confunda coragem com irresponsabilidade. Ao cruzar a linha para o desconhecido, alguém com excesso de autoconfiança pode se colocar em perigo real.
Uma pessoa que sai de casa sem guarda-chuva, mesmo ouvindo raios e trovões e vendo o céu todo escuro, cheio de nuvens carregadas, não demonstra necessariamente confiança de que não vai chover. Pode estar simplesmente sendo irresponsável.
Não avaliou os riscos e não se protegeu deles.
A autoconfiança que eu espero desenvolver em mim, e que sugiro que você desenvolva também, está relacionada à capacidade de analisar uma situação e tomar decisões com base em riscos calculados.
Quando você é chamado a uma situação desconhecida, procure avaliar o risco ao qual está se expondo antes de decidir se deve ou não cruzar a linha e seguir adiante.
Um convite, por exemplo, para se apresentar numa conferência em frente a um monte de espectadores pode parecer uma situação bastante assustadora se você nunca fez isso antes.
Mas, se avaliar bem, talvez não seja um risco que você deva evitar, mas uma situação na qual deveria ter coragem de se expor para abrir oportunidades na sua vida profissional.
Para desenvolver a confiança necessária, você certamente vai se preparar, estudar, montar uma boa apresentação e desenvolver as competências necessárias para enfrentar o desafio.
Não é algo que deveria te amedrontar a ponto de você não participar. Ao avaliar os possíveis resultados, talvez você perceba que o impacto negativo é muito menor do que o potencial impacto positivo.

O outro lado do risco (da linha)
As definições mais modernas de risco reconhecem que os efeitos da incerteza podem ser tanto negativos quanto positivos.
Isso muda um pouco a maneira como olhamos para aquela linha. O desconhecido pode conter algo que você não quer que aconteça. Mas também pode conter exatamente aquilo que você gostaria que acontecesse.
Nesse caso, o risco deixa de ser visto apenas como perigo ou problema e passa a representar também uma oportunidade.
É como jogar na loteria. Você corre o risco de ganhar.
O que fazer com isso?
Seja para sair de casa, jogar na loteria, ou assumir uma nova posição em sua carreira, essa relação entre confiança e risco sempre estará presente.
Use as técnicas de análise que você tem à sua disposição para avaliar o que pode acontecer nesse futuro desconhecido.
Seu grau de segurança sobre esse possível futuro e sobre sua capacidade de lidar com ele é o que vai lhe dar a coragem necessária para cruzar a linha.
- Confira outros artigos sobre o tema Confiança.
- Comente este artigo no LinkedIn

