Como cargos, papéis e competências se relacionam com a sua profissão
Tenho conversado com muitos profissionais e organizações a fim de entender como se dá a progressão de carreira em empresas ligadas a trabalhos de alto nível intelectual e me parece que o jogo mudou.
Durante muito tempo, fomos ensinados a pensar na carreira como uma escada em que você começa embaixo, aprende, ganha experiência, recebe uma promoção e sobe um degrau. Depois outro. E outro.

Cada novo degrau eleva um pouco mais as responsabilidades a serem assumidas e a complexidade das tarefas a serem desempenhadas. Quanto mais alto conseguir subir nessa escada, mais bem-sucedido você é.
Mas essa escada está ficando cada vez mais difícil de encontrar.
As organizações são forçadas a mudar continuamente. As equipes são alocadas a projetos. Times são montados e desmontados. Novas tecnologias e novos métodos reviram a estrutura de ponta-cabeça. Responsabilidades atravessam departamentos. Pessoas lideram uma iniciativa e participam de outra como especialistas.
A metáfora da escada parece não atender mais à dinâmica da evolução de carreiras. Venho propor aqui uma analogia diferente: a de um tabuleiro de xadrez.
O xadrez não é uma hierarquia
Num jogo de xadrez ninguém começa como peão na expectativa de se tornar rei. O jogo não é esse. Cada peça contribui com a estratégia ocupando diferentes casas do tabuleiro.
Embora tenham sido inspiradas na estrutura monárquica medieval, as peças do xadrez não representam uma hierarquia. Elas representam diferentes capacidades de movimento.
- O peão anda para frente e captura na diagonal.
- O bispo percorre diagonais.
- A torre se movimenta pelas linhas e colunas.
- O cavalo salta sobre outras peças em um movimento em L.
- O rei pode se mover em qualquer direção, mas apenas uma casa de cada vez.
- A rainha combina as capacidades de movimento da torre e do bispo.
Nesta minha metáfora, você é uma das peças. Suas competências determinam os movimentos que é capaz de fazer e, consequentemente, as posições que está apto a assumir no tabuleiro.

Da escada para o tabuleiro
Imagine cada uma das casas do tabuleiro representando um papel que precisa ser desempenhado na organização.
- Líder de equipe;
- Product Owner;
- Planejador;
- Líder técnico;
- Facilitador;
- Especialista no domínio de negócio;
- Avaliador de qualidade;
- Mentor.
Ou qualquer outro papel definido na sua metodologia de trabalho.
Mover-se de um papel para outro não representa necessariamente que o profissional foi promovido ou rebaixado. Apenas que terá uma atuação diferente para contribuir com a estratégia.
Essa maneira de pensar em carreira exige segmentar alguns conceitos.
Cargos, papéis e competências
Essa distinção me parece embaralhada na Gestão de Recursos Humanos.
Analista de Negócios Sênior é um cargo, um papel ou um conjunto de competências?
Faça essa pergunta em 3 organizações e encontrará 4 respostas diferentes. Os conceitos estão normalmente misturados.
Proponho a seguir uma distinção. (Sei que ela pode não ser um consenso e estou aberto a outras perspectivas. Escreva a sua nos comentários):
- Cargo (job title) é uma posição formal na estrutura organizacional, normalmente associada a um vínculo por contrato, que estabelece remuneração, benefícios e responsabilidades relativamente estáveis.
- Papel (role) é um conjunto de responsabilidades assumido por alguém em determinado contexto. Nota: O papel pode mudar sem que seu cargo mude.
- Competência (competency) é a capacidade de mobilizar conhecimentos, habilidades e experiências para agir de forma eficaz em determinado contexto.
A evolução de sua carreira pode acontecer nessas três perspectivas, mas não necessariamente de maneira linear.
Uma pessoa contratada para determinado cargo pode desempenhar diferentes papéis em diferentes iniciativas. Pode liderar em uma situação e ser liderada em outra. Pode ser especialista em um projeto e aprendiz no seguinte.
E isso não é necessariamente uma inconsistência organizacional. Pode ser parte de uma estratégia para tornar a organização mais adaptável. Mais nimble.
Voltando ao tabuleiro de xadrez
Você é uma peça e pode movimentar-se no tabuleiro ocupando diferentes posições.
Cada posição é um papel que define responsabilidades associadas a um contexto específico.
Suas competências definem os movimentos que você é capaz de fazer. Associe isso ao seu contexto (posição atual) e determine quais posições poderá assumir.

Seu cargo não faz parte deste tabuleiro. É uma classificação administrativa que evolui em outro jogo em que são estabelecidos salário, benefícios, senioridade, responsabilidades contratuais e outras questões administrativas. Essa evolução tem relação com o seu desempenho nos papéis que desempenha, mas merece uma analogia separada que eu não estou abordando neste artigo.
Peço desculpas. Imagino que este seja o jogo que mais lhe interessa.
Com o passar do tempo, você espera ganhar mais e evoluir nos degraus da escada de Júnior, Pleno e Sênior até a próxima fase do joguinho salarial. Mas o seu cargo diz cada vez menos o que você efetivamente faz todos os dias. A descrição do trabalho real tende a ser muito mais volátil.
Mesmo sabendo dessa sua frustração, espero que essa analogia possa levantar algumas questões interessantes sobre como você se define profissionalmente.
O conceito de profissão
No passado, era comum atribuir um único nome a todos esses 3 conceitos. Uma profissão era uma mescla de cargo, papel e conjunto de competências.
Dessa forma, ao contratar um Analista de Negócios, um Engenheiro de Requisitos ou um Arquiteto de Negócios (apenas para citar algumas profissões), a empresa já esperava alocar alguém com um determinado perfil de competências, pagando um determinado nível salarial para produzir um conjunto de entregas.
Esse modelo vem se dissolvendo nas últimas décadas. A linha de montagem com Charles Chaplin apertando parafusos não é uma realidade aplicável à indústria do conhecimento.

Modelos de trabalho mais ágeis difundiram a formação de equipes multidisciplinares e autogeridas. Contratantes esperam que os profissionais contratados possam aplicar suas competências para atuar de maneira flexível, identificando o que precisa ser feito e respondendo da maneira mais adequada, independentemente de um roteiro predefinido ou de limitações rígidas nas fronteiras de atuação.
O compromisso esperado não é apenas com a entrega (outputs), mas com os resultados (outcomes).

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O impacto da IA no mercado de trabalho acelera ainda mais essa mudança. Se no passado um profissional era definido pelos seus entregáveis, essa forma de definir seu valor começa a perder sentido quando a IA passa a produzir esses mesmos entregáveis automaticamente.
Uma profissão não deve ser resumida a um conjunto de entregas. A IA pode reduzir a necessidade de pessoas dedicadas exclusivamente a produzir determinados artefatos, mas isso não reduz a necessidade das competências que existem por trás deles.
O papel das associações profissionais
Se o que antes chamávamos de profissão como um pacote de cargo, papel e competências começa a se decompor, as associações profissionais precisam repensar seu papel e reavaliar como apoiam seus associados.
O conceito de profissão sempre foi e continua sendo essencial para oferecer uma identidade profissional, trilha de formação, comunidade profissional, terminologia, padrões, código de ética, certificações etc.
Independentemente do cargo ou papel que esteja desempenhando, o que ainda me parece mais fortemente ligado à profissão é o conjunto de competências. E neste sentido é possível acumulá-las, recorrendo a diferentes associações para isso:
- Procure o IREB para desenvolver competências em Engenharia de Requisitos.
- Procure o IIBA para desenvolver competências em Análise de Negócios.
- Procure a Business Architecture Guild para desenvolver competências em Arquitetura de Negócios.
Cada uma dessas associações oferece guias, certificações e uma comunidade dedicada a elevar o nível dos conhecimentos e práticas em sua especialidade.
E não se surpreenda se encontrar alguns membros ativos em mais de uma delas. Os temas não são exclusivos, há muita sobreposição e um profissional pode combinar competências de diferentes especialidades para ampliar suas possibilidades de movimento.
Desenvolver a carreira é aumentar suas possibilidades de movimento
No modelo de trabalho atual, o desenvolvimento de sua carreira depende menos de seguir uma trilha pré-definida e mais de ampliar suas possibilidades de movimento. Você pode desenvolver competências associadas a outras profissões para assumir papéis que antes estavam fora do seu alcance.
Desenvolver pensamento estratégico, facilitação, negociação, análise, criatividade ou conhecimento de negócio pode mudar completamente a região do tabuleiro que você consegue alcançar.
Você não precisa aprender tudo sobre todas as profissões. Assim como a rainha é extremamente poderosa, mas não sabe fazer o movimento do cavalo, você pode focar no desenvolvimento dos movimentos necessários para chegar às casas onde você gostaria de estar.
Profissionais diferentes podem construir conjuntos diferentes de competências e, consequentemente, ter possibilidades diferentes de movimento.
Qual é o seu próximo movimento?
Quando pensamos em carreira como uma escada, alguém precisa construir os degraus. Esperamos um plano de carreira, critérios de promoção e uma sequência razoavelmente previsível de cargos. Normalmente, esperamos que as empresas façam isso. E quando não fazem, ficamos perdidos.
No tabuleiro, a responsabilidade muda. A organização pode oferecer oportunidades e mudar completamente a configuração do jogo. Papéis que ontem estavam disponíveis podem desaparecer; outros que nem existiam podem surgir. Mas é você quem precisa conhecer suas competências e entender quais movimentos elas lhe permitem fazer.
Se você quer conduzir a própria carreira hoje não se limite a perguntar:
“Qual é o próximo degrau na minha profissão?”
Em vez disso, reflita sobre:
“De onde estou, para quais casas consigo me mover?”
E, se a casa que quero alcançar ainda estiver fora do meu alcance:
“Que novo movimento preciso aprender?”
A carreira deixou de ser apenas uma questão de subir. É cada vez mais uma questão de entender onde você está, quais movimentos suas competências permitem fazer e quais novas competências precisa desenvolver para ampliar suas opções no tabuleiro.
Uma imagem em construção
Tenho conversado com profissionais de diferentes empresas e associações para tentar entender as transformações que estão acontecendo no mundo do trabalho, principalmente para a Análise de Negócios, que é a minha especialidade, e este artigo é uma tentativa de organizar minhas reflexões.
Confesso que ainda não estou totalmente convencido da metáfora do xadrez. Durante a escrita, mudei essa metáfora várias vezes até chegar nessa versão. Mesmo assim, achei que já valia a pena compartilhar para receber feedback.
Ficarei feliz se você acrescentar algo nos comentários que valide, conteste ou contribua com essa análise.
Agradecimentos
Estas reflexões também foram enriquecidas por conversas recentes com
Susan A. Moore, Stan Bühne, Kim Lauenroth, Robert Snyder, Thea Soehren, Laura Brandenburg, Scott Ambler, and Ankit Agrawal.

