Autoconfiança: a coragem de falhar

Como desenvolver autoconfiança em tempos de incerteza e complexidade: menos respostas, mais coragem, curiosidade e colaboração.

Uma tia da minha mãe foi professora de piano por décadas. Durante esse período, teve vários alunos que a adoravam.

Um dia, um deles disse que gostaria de visitá-la acompanhado de um parente que era um maestro famoso.

Ela entrou em pânico.

Certamente o aluno pediria que ela tocasse alguma música, e o maestro poderia identificar possíveis falhas na execução que manchariam sua reputação para sempre. Se ela se negasse a tocar, seria uma desfeita e uma prova de incapacidade.

Como escapar dessa situação fatídica?

No dia da visita, aluno e maestro chegaram na hora marcada. Minha tia os recebeu com um café e bolo quentinhos, um sorriso nos lábios e a mão direita totalmente imobilizada em um curativo.

Ela tivera um “suposto” acidente doméstico.

A tia da minha mãe com uma crise de falta de autoconfiança
A tia da minha mãe – Figura ilustrativa criada usando o ChatGPT

Minha mãe teve uma crise de falta de confiança.

E o mais curioso é que ela era uma excelente professora de piano e tocava muito bem.

O termo confiança (confidence, em inglês) pode representar um sentimento em relação a alguma coisa, alguém ou alguma organização, mas é mais usado, assim como na história da minha tia, de maneira reflexiva, representando o grau de segurança interior que um indivíduo apresenta diante de um desafio para acreditar que conseguirá alcançar o resultado esperado.

A importância da autoconfiança

Quando uma associação como o IIBA adota o lema “Enabling Confidence”, eu entendo que ela está oferecendo soluções para que profissionais de análise de negócios tenham mais certeza de que podem ajudar suas organizações a obter melhores resultados (outcomes).

Essas soluções envolvem publicações, comunidade, eventos e atividades que ajudam a transformar quem participa delas em alguém mais autoconfiante.

Uma pessoa autoconfiante acredita que vai ter sucesso, e essa crença afeta seu comportamento, aumentando suas chances de, de fato, obter sucesso.

  • O vendedor tem certeza de que seu produto é a última bolacha do pacote e que o cliente ficará extremamente satisfeito com a compra.
  • O jogador de basquete visualiza a bola entrando na cesta antes mesmo de arremessar.
  • O humorista faz uma pausa logo após contar uma piada, aguardando pelas risadas da plateia.
  • O atirador de facas no circo lança uma adaga afiada em direção à sua assistente com a certeza de que atingirá um balão, e não a cabeça da pobre moça indefesa.

Em todas essas situações, qualquer sinal de dúvida ou hesitação pode colocar tudo a perder.

Confiança não é apenas desejável. É essencial para que sua mente esteja focada e seu corpo possa atuar como um mecanismo perfeitamente ajustado para fazer aquilo a que se propõe.

Para que você assuma a postura certa.

Para que faça o que precisa ser feito da maneira correta.

Sem equívocos.

Falta de autoconfiança é um boicote interior

A falta de confiança atrapalha a execução.

A incerteza desvia a mente do objetivo, encurta os músculos, atrasa movimentos que perdem precisão e aparece num olhar para o chão, numa mordida nos lábios ou num sorriso amarelo que tenta esconder a vergonha de um fracasso esperado antes mesmo do início do jogo.

Sem confiança, uma pessoa nem sequer entra em campo.

“Se você pensa que pode, ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo.”

— Henry Ford

Contudo, um erro comum é acreditar que a autoconfiança é construída sobre um histórico de sucessos. Na verdade, ela tem muito mais a ver com a coragem de tentar mesmo quando o fracasso parece bastante provável.

A autoconfiança não nasce da ausência do fracasso.

Ela nasce da coragem de agir apesar da possibilidade de fracassar.

É na coragem de superar os medos e seguir em frente que a autoconfiança se manifesta.

Não existe coragem sem medo. Quem não tem medo não é corajoso. Quem enfrenta perigos sem medo talvez seja apenas inconsequente ou esteja mal informado. Coragem é a disposição de seguir adiante mesmo com medo.

A autoconfiança não elimina o medo. Ela apenas acredita que será possível lidar com o que vier pela frente.

Autoconfiança vs. autoestima

Não confunda autoconfiança com autoestima.

Enquanto a autoconfiança olha para frente e acredita que conseguirá sucesso naquilo que ainda vai fazer, apesar das dificuldades, a autoestima olha para trás e se orgulha dos feitos realizados e da imagem construída ao longo da vida.

Autoconfiança vs Autoestima - Criada usando ChatGPT
Autoconfiança vs Autoestima – Criada usando ChatGPT

A proteção da autoestima pode atrapalhar a autoconfiança.

O medo de manchar uma imagem já consolidada muitas vezes impede que tomemos ações que possam colocar essa imagem em risco.

Assim como minha tia não teve coragem de tocar para o maestro, uma pessoa com alta autoestima tende a evitar o erro com mais intensidade do que alguém que nunca tentou antes e sente que não tem nada a perder.

O orgulho pode ser uma barreira para a ação.

E a autoconfiança, embora seja um sentimento íntimo, só se manifesta na prática.

Assim como a coragem só é evidenciada ao enfrentar o medo, a autoconfiança se evidencia quando agimos acreditando que conseguiremos dar conta do desafio.

Aparentar confiança ajuda a ter confiança

Boa parte dos tutoriais de desenvolvimento da confiança sugere uma mudança externa visível que altere a forma como você é visto pelos outros (e por si mesmo).

O lema é:

Fake it till you make it.

Fingir confiança quando ainda não a possui não é falsidade ideológica nem falta de caráter. É uma estratégia de superação.

Seu tom de voz e sua postura têm uma relação de mão dupla com seus sentimentos.

Imagine uma pessoa amedrontada diante de um agressor: postura curvada, ombros tensos, braços encolhidos e olhar desviado.

Agora imagine o oposto: postura ereta, ombros relaxados, braços abertos e olhar direto para o interlocutor.

Ilustração: Postura Amedrontada vs. Autoconfiante - Criada com ChatGPT
Ilustração: Postura Amedrontada vs. Autoconfiante – Criada com ChatGPT

Independentemente dos debates científicos sobre o impacto hormonal das chamadas power poses, poucas pessoas duvidam de que postura, tom de voz e expressão corporal influenciam a forma como somos percebidos e até a maneira como nos sentimos.

Enfrentar um oponente com a cabeça erguida e uma expressão de segurança impõe respeito ao outro e nos ajuda a diminuir a tremedeira das pernas.

A aparente confiança da IA

Embora não sejam capazes de sentir qualquer coisa, os modelos de linguagem de IA simulam muito bem uma linguagem de autoconfiança.

Não importa se a informação está correta ou se é uma alucinação sem fundamento algum: a IA apresenta uma correção gramatical e sintática que faz com que suas respostas pareçam 100% certas.

É o que chamamos de comunicação assertiva.

Embora muitas pessoas confundam “assertividade” com “estar certo”, o termo não se refere à exatidão dos fatos, mas à firmeza, clareza e objetividade com que uma mensagem é transmitida.

Isso pode ser extremamente enganoso.

Muitas vezes a resposta obtida da IA está errada, não foi confirmada ou é fruto de uma alucinação. Ainda assim, a forma como ela responde é tão assertiva que nos leva a acreditar nela sem a devida validação.

É um exemplo perfeito de fake it till you make it.

A autoconfiança (confidence) com que ela responde faz com que tenhamos confiança (trust) nela.

(Consulte o artigo anterior “Enabling Confidence: Confidence ou Trust?” para entender melhor essa diferença.)

Autoconfiança para profissionais de análise de negócios

Boa parte do trabalho de análise de negócios envolve buscar soluções para problemas complexos, frequentemente inéditos, para os quais ninguém sabe exatamente por onde começar.

Esse cenário pode parecer assustador e afugentar até os profissionais mais experientes, com currículos extensos, histórico de sucesso e várias medalhas no peito.

Como ter autoconfiança de verdade se não temos todas as respostas?

Pode não ser tão difícil quanto parece. Especialmente para quem assume o papel de analista de negócios.

Você agregará um valor imenso simplesmente ajudando todos os envolvidos a compartilharem um entendimento comum do problema. Não se preocupe tanto com as respostas. Concentre-se em fazer boas perguntas.

Deixe que a curiosidade seja sua guia e use tudo aquilo que você ainda não sabe como oportunidade para trazer à tona (elicitar) as informações que irão compor seu modelo colaborativo de entendimento do negócio.

Tenha segurança de que as respostas virão no momento adequado, quando as perguntas certas puderem ser formuladas.

Na análise de negócios, a confiança não nasce da certeza. Na verdade, existem muito poucas certezas. Ela nasce da curiosidade, da colaboração e da coragem de seguir em frente mesmo quando o caminho ainda não está completamente visível.

Colaboração é a essência do trabalho de um analista de negócios.

Uma solução desenhada em conjunto terá mais autoridade e já nascerá acompanhada do compromisso daqueles que participaram de sua construção.

Tenha humildade para reconhecer que você não é o único responsável pela análise. Uma boa análise é cocriada. Crie e sustente um ambiente em que todos possam participar adequadamente.

Reconheça que seus conhecimentos e sua sabedoria são limitados e confie nas técnicas de análise e facilitação para fazer emergir a inteligência coletiva.

Sua autoconfiança não virá da crença de que você já possui todas as respostas. Ela virá da convicção de que conseguirá encontrá-las.

E, se elas ainda não apareceram, talvez ainda não seja o final da história. Siga em frente. Erros e falhas fazem parte do processo. São eles que nos permitem aprender, crescer e evoluir.

Foi exatamente isso que minha tia não conseguiu fazer naquele dia diante do maestro. E é exatamente isso que analistas de negócios precisam fazer todos os dias quando enfrentam problemas novos, complexos e cheios de incertezas.

A autoconfiança não elimina os desafios. Mas nos dá coragem para seguir adiante acreditando que seremos capazes de enfrentá-los.

Vem aí…

No artigo anterior desta série inspirada no tema “Enabling Confidence in the AI Era”, argumentei que trust nasce da percepção e confidence nasce da evidência.

Neste artigo, procurei mostrar que a evidência mais importante para a autoconfiança talvez não seja um histórico de sucessos, mas um ato de coragem diante da adversidade.

Continuo coletando feedbacks para transformar esse tema em um keynote memorável que será apresentado internacionalmente.

Participe nos comentários. Traga sugestões, exemplos, concordâncias ou discordâncias. Vou adorar ouvir sua perspectiva.

Na próxima semana, falaremos sobre quando a confiança pode se tornar perigosa.


Referencias