Fail Fast versus Fail Fest – Quando errar vira uma festa

Fail Fast busca aprendizado. Fail Fest entrega problemas. A busca por agilidade não deve destruir a confiança dos seus clientes.

Há uma enorme diferença entre fail fast e fail fest.

O primeiro é uma das ideias mais inteligentes que surgiram com o movimento ágil. O segundo é uma distorção perigosa desse princípio.

Fail fast vs Fail fest
Fail fast vs Fail fest – Criado usando o ChatGPT

Infelizmente, algumas organizações estão confundindo uma coisa com a outra.

Errar rápido nunca significou produzir qualquer coisa, colocar nas mãos do cliente e esperar que ele descubra os problemas por nós. Isso não é agilidade. É apenas um festival de falhas.

O verdadeiro significado de fail fast

O desenvolvimento tradicional de software e produtos digitais segue uma lógica relativamente simples: investe-se muito tempo, dinheiro e esforço construindo algo que parece ser uma boa ideia, para entregar algo “pronto”. Nesta abordagem, somente depois de meses (às vezes anos) de trabalho, o produto chega às mãos do cliente.

E só nesse momento é possível responder à pergunta mais importante de todas:

Essa ideia realmente gera valor?

Se não, todo o investimento realizado não passou de um enorme desperdício.

Foi justamente para reduzir esse risco que surgiu a ideia de encurtar os ciclos de feedback.

Como o valor só pode ser medido quando o produto encontra seu beneficiário, faz muito mais sentido descobrir rapidamente se uma hipótese está correta antes de investir pesado nela.

É exatamente esse o espírito do fail fast.

Errar cedo para aprender cedo.

Não porque o erro seja desejável, mas porque aprender rapidamente custa muito menos do que insistir durante meses em uma hipótese equivocada.

MVP não significa produto ruim

Uma das técnicas mais conhecidas para colocar esse princípio em prática é o MVP (Minimum Viable Product ou Produto Mínimo Viável em português).

Muitas pessoas interpretam esse conceito como “o pior produto que ainda funciona” ou “uma versão mal acabada do produto”.

Na realidade, essa nunca foi a proposta.

O MVP é o experimento mais simples e econômico capaz de validar uma hipótese importante.

Seu objetivo não é economizar qualidade, mas reduzir riscos e desperdícios.

Ele procura responder a uma pergunta específica da maneira mais barata, rápida e segura possível.

Depois do aprendizado, novas decisões são tomadas e novos investimentos são realizados com muito mais informação do que existia no início.

A IA acelerou tudo

A inteligência artificial levou essa lógica a uma velocidade inédita.

Construir um software tornou-se incrivelmente rápido. Hoje basta descrever uma ideia para que uma IA gere uma primeira versão de uma aplicação praticamente do zero.

Mesmo quem nunca desenvolveu software já experimentou essa sensação ao criar uma imagem, gerar um vídeo ou produzir um texto com IA.

Um simples prompt é suficiente para produzir algo. Se vai atender às suas expectativas ou não, é outra história. Mas o fato é que a velocidade de construção deixou de ser o principal problema.

Agora o desafio passou a ser outro.

Quando fail fast vira fail fest

O problema começa quando um protótipo ou uma prova de conceito deixa de ser um experimento e passa a ser tratado como produto.

Quando aquilo que deveria servir apenas para validar uma hipótese é disponibilizado diretamente ao mercado e o cliente recebe um produto mal acabado, cheio de falhas, sem sequer saber que está sendo tratado como cobaia.

Foi durante uma conversa com meu amigo Ricardo Stucchi, presidente do IIBA Brasil, que ele usou a expressão fail fest para descrever esse tipo de situação. Achei a expressão tão precisa que ela acabou dando origem a esta reflexão.

Fail fest é uma prática de desenvolvimento não ágil, mas apressado, de produtos em que:

  • Não existe mais uma hipótese claramente definida.
  • Não existe um experimento cuidadosamente planejado.
  • Não existe um aprendizado estruturado.

Existe apenas um produto insuficientemente pensado sendo colocado em produção com a expectativa de que o cliente faça os testes e análises que deveriam ter sido realizados pela própria organização.

Quando surgem reclamações, corre-se para corrigir os problemas.

Depois surgem novos problemas. Depois novas correções. E o ciclo se repete.

Não estamos mais falando de aprendizado rápido. Estamos falando de improvisação.

Fluxo do Fail fast vs Fail fest - Criado por Fabrício Laguna usando o ChatGPT
Fluxo do Fail fast vs Fail fest – Criado usando o ChatGPT

O preço da confiança

Essa prática pode custar muito caro e não estou me referindo apenas ao aspecto financeiro. O festival de falhas corrói algo muito mais difícil de reconstruir: a confiança.

Cada vez que um cliente utiliza um produto que claramente não estava pronto, ele deixa de confiar um pouco na empresa que o produziu.

Um erro não é percebido como parte de um processo de inovação. É interpretado  pelo cliente como falta de cuidado, competência e respeito.

Enquanto a organização acredita que está sendo ágil, o cliente apenas percebe que o produto não funciona e, no pior cenário, pode nem reclamar e apenas migrar para o concorrente. A organização nem terá a chance de aprender com a falha e ficará no escuro tentando entender o que aconteceu.

Confiança é construída lentamente, mas pode ser destruída muito rapidamente.

Errar rápido não significa colocar produto ruim na mão do cliente

Existe uma enorme diferença entre validar hipóteses rapidamente e terceirizar a qualidade para o cliente.

O primeiro reduz riscos.

O segundo cria novos riscos.

O verdadeiro fail fast é um processo científico que procura identificar incertezas, definir hipóteses claras e construir experimentos inteligentes para aprender o mais rápido possível e decidir melhor antes de investir mais.

O fail fest apenas acelera a entrega de problemas na mão do cliente e, na maioria das vezes, nem declara uma hipótese a ser testada.

A inteligência artificial tornou mais fácil criar produtos, mas ela também tornou muito mais fácil produzir software ruim em velocidade recorde.

Não acredite no canto da sereia de que a vantagem competitiva oferecida pela IA está apenas em construir mais rápido e colocar qualquer coisa no ar. O sucesso depende de aprender rapidamente, mas sem transformar seus clientes em cobaias.

Velocidade gera eficiência. Aprendizado gera evolução. Mas confiança continua sendo o ativo mais valioso que uma organização precisa construir e também um dos mais fáceis de perder.


Outros conteúdos relacionados