Há três anos publiquei um vídeo de um cenário futurístico em que um analista de negócios trabalhava com uma assistente de inteligência artificial utilizando uma interface conversacional com recursos gráficos para entender tendências, analisar indicadores, avaliar cenários, rodar experimentos e tomar decisões que modificavam automaticamente regras de negócio e processos organizacionais.
No post eu desafiava quem assistisse ao video a responder uma pergunta bastante simples:
Em que ano isso vai acontecer?
Se nunca viu esse vídeo, talvez prefira assisti-lo antes de continuar a leitura. Vale a pena! São apenas 6 minutos e meio de um futuro possível.
Depois de assistir, faça seu próprio julgamento: viajei na maionese com um cenário impossível ou apenas mostrei, um pouco antes, uma cena do que já estava se formando?
Os palpites de quem assistiu na época
Publiquei esse vídeo no LinkedIn e no YouTube em junho de 2023. Algumas pessoas deixaram comentários dizendo que aquele futuro já estava praticamente pronto e teríamos negócios assim ainda naquele ano. Outras imaginavam que levaria pelo menos uma década. E algumas simplesmente acreditavam que aquilo nunca aconteceria.

Três anos depois, sinto que o ano de 20XX ainda não chegou, e a pergunta continua válida:
Em que ano você acha que teremos essa realidade?
Apontando para o futuro como alvo, não como bola de cristal
Alguns podem interpretar aquele vídeo como uma tentativa de prever o futuro, mas essa nunca foi minha intenção. Como analista de negócios, meu trabalho não é prever o futuro. É ajudar a desenhá-lo.
Analistas como eu especificam soluções antes que elas existam. Criam modelos, protótipos e cenários capazes de orientar quem irá desenvolvê-los. Foi isso que tentei fazer naquele vídeo.
Mais do que imaginar como a inteligência artificial evoluiria, procurei mostrar um futuro possível. Um futuro que pudesse inspirar desenvolvedores, organizações e investidores a construir as ferramentas necessárias para que ele deixasse de ser ficção.
Este artigo mantém o mesmo propósito. Mas apontando o que evoluiu nesses últimos 3 anos, o que ainda não chegou e o que piorou.
O que evoluiu
Olhando para aquele vídeo hoje, é impressionante perceber o quanto algumas das tecnologias evoluíram em apenas três anos.
Interfaces de linguagem natural
Na época, utilizei alguns truques de edição para simular uma conversa natural entre o analista e a inteligência artificial. Hoje isso se tornou comum.
Conversar com uma IA por voz, interrompê-la durante a resposta, compartilhar imagens, utilizar multimodalidade e interagir quase em tempo real já fazem parte da experiência oferecida por diversas ferramentas comerciais.
Ainda estamos longe de ver essa interface substituindo todos os sistemas corporativos, mas me parece cada vez mais claro que esse será o principal modelo de interação entre pessoas e equipamentos nos próximos anos.
A tecnologia necessária para isso já existe e é bastante confiável.
IA agêntica
Em 2023, a maior parte das aplicações de IA funcionava como um chatbot: fazia perguntas e recebia respostas.
Hoje estamos entrando na era dos agentes. As IAs passaram a perseguir objetivos, definir estratégias, executar planos, utilizar ferramentas, integrar-se a sistemas corporativos e acionar APIs para realizar atividades reais.
Grande parte dos investimentos atuais das organizações está justamente nessa direção.
Conhecimento corporativo compartilhado
Outro avanço importante aconteceu na forma como as organizações passaram a conectar suas bases de conhecimento à inteligência artificial.
Em vez de depender apenas do conhecimento previamente treinado no modelo, as empresas começaram a permitir que suas IAs consultassem documentos, políticas, processos, bases estruturadas, notas de reuniões e informações internas para responder perguntas e apoiar decisões.
Os chamados copilotos corporativos representam um avanço importante nessa direção e já começam a se aproximar do cenário apresentado no vídeo.
Trabalho assistido por IA
Também evoluímos muito na forma como a IA apoia profissionais das mais diversas especializações.
- Analistas de negócios escrevem requisitos, histórias de usuário, critérios de aceite e analisam documentação muito mais rapidamente.
- Desenvolvedores produzem e aprimoram código.
- Advogados usam a IA para ler, analisar e redigir processos.
- Equipes comerciais usam a IA para gerar propostas e contratos.
Mais do que substituir esses profissionais, a IA passou a assumir boa parte do trabalho operacional, abrindo espaço para que eles atuem de forma mais estratégica.
Pelo menos, essa é a promessa.
O que ainda não chegou
Se por um lado a tecnologia avançou rapidamente, por outro percebo que os maiores obstáculos deixaram de ser tecnológicos. Hoje eles são organizacionais.
Uma visão realmente integrada do negócio
No vídeo, a inteligência artificial tinha acesso às diversas bases corporativas, indicadores, processos, regras de negócio e dados transacionais. Com isso, ela mostrava uma visão holística da organização para apoiar as decisões do analista.
Esse cenário ainda é raro. Não por falta de tecnologia, mas porque poucas organizações possuem dados suficientemente integrados, documentados e confiáveis para permitir esse tipo de atuação.
Ainda há um enorme trabalho de integração, qualidade de dados, documentação de processos e explicitação das regras de negócio antes que possamos oferecer à IA o contexto necessário para atuar como um verdadeiro copiloto corporativo.
Negócios dinamicamente reconfiguráveis
Outro ponto que ainda evoluiu muito pouco foi a capacidade de modificar regras e processos apenas por configuração, sem a necessidade de desenvolvimento de software.
No vídeo, a IA identificava oportunidades de melhoria, propunha alterações, submetia essas mudanças ao fluxo de governança adequado e, depois de aprovadas, colocava tudo em produção praticamente sem intervenção humana.
Embora hoje existam tecnologias capazes de automatizar boa parte desse fluxo, ainda vejo poucas organizações preparadas para delegar esse tipo de responsabilidade à IA.
A limitação deixou de ser técnica. Passou a ser um desafio de governança e de desenho organizacional.
O que piorou
Existe, porém, um aspecto em que acredito que caminhamos justamente na direção oposta àquela imaginada no vídeo.
Para meu amigo Vince Mirabelli, o detalhe mais importante daquele vídeo não era a inteligência artificial. Era a quadra de tênis. Ele adorou o fato de que, ao final da demonstração, depois de realizar praticamente todo o trabalho do dia em cerca de cinco minutos, eu simplesmente desligava o computador e ia jogar tênis.
Ele entendeu isso não apenas como uma maneira simpática de ilustrar um ganho de produtividade, mas como uma mensagem muito mais profunda:
A inteligência artificial deveria nos devolver tempo para:
- refletir;
- aprender;
- criar;
- estar com a família;
- cuidar da saúde;
- viver.
Infelizmente, nesse ponto, acredito que estamos caminhando na direção errada. À medida que a IA aumenta nossa produtividade, cresce também a expectativa de que tudo aconteça ainda mais rápido.
Em segundos, a IA produz documentos e realiza análises que antes levavam dias. Mas o tempo economizado não retorna para o profissional. Ele é imediatamente preenchido por novas demandas.
Na maior parte das organizações, os ganhos de produtividade passaram a ser tratados como oportunidade para acelerar entregas ou reduzir custos, e não para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
É realmente esse o futuro que queremos construir?

Conclusão
Ao revisitar aquele vídeo, minha impressão é que a tecnologia evoluiu mais rápido do que nós. Três anos depois, a limitação tecnológica quase não existe. O maior desafio é organizacional.
Hoje temos modelos mais inteligentes, interfaces mais naturais, agentes mais capazes e ferramentas bem mais maduras. Mas ainda precisamos evoluir na integração das bases de conhecimento, na governança dos processos, na capacidade de adaptar negócios dinamicamente e, principalmente, na forma como escolhemos utilizar toda essa tecnologia.
Assistindo novamente hoje, sinto necessidade de reformular a perguntado de quando o ano de 20XX chegará. A pergunta mais relevante é qual futuro queremos construir?
O avanço não é só sobre tecnologia, mas também sobre qualidade de vida.
Como usar a inteligência artificial para libertar pessoas do excesso de trabalho e permitir que elas dediquem mais tempo ao pensamento, à criatividade, aos relacionamentos e às coisas que realmente importam?
Precisamos discutir não apenas o que a IA é capaz de fazer, mas quais resultados (outcomes) esperamos alcançar com ela para organizações, sociedade e meio ambiente.
Espero revisitar esse vídeo novamente daqui a três anos e, mais do que encontrar tecnologias ainda mais avançadas, espero encontrar organizações e pessoas que tenham evoluído na mesma direção.
Que esse protótipo ainda possa inspirar futuros jogadores de tênis.
E você? Que futuro espera alcançar com o avanço da tecnologia? E qual papel você pretende desempenhar na construção desse futuro?
Referências
Artigos Explorando a Fronteira da IA
- Análise de Negócios com Inteligência Artificial no ano 20XX
- Explorando a Fronteira da IA: Acesso em Linguagem Natural
- Explorando a Fronteira da IA: Bases de Conhecimento Integradas
- Explorando a Fronteira da IA: Reconfiguração Dinâmica
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